segunda-feira, 29 de agosto de 2011

caderno, 1.

2009.
1.

Insurge-se a noite, sonâmbula e submissa aos pingos gordos e grossos da chuva que cai nos passeios e nas estradas. Este som é o momento que pousa nos relógios abrigados sobre cómodas ou pendurados em paredes tristes. Na minha embriaguez de sentidos sorvo anéis de fumo brancos e quase perfeitos, roçam-me a língua e sabem a cidades vazias e abandonadas. Na mão esquerda trago um copo translúcido e quase invisível. Não sei para que serve, mas cada gota que desliza pelo vidro exala uma nota rude e áspera, enchendo-se gradualmente, mas nunca transbordando. E, penso; creio que todos os humanos padecem duma sede insustentável que os assusta e deixa insatisfeitos. Uma sede que se estende nas esteiras de bambu que estalam ao sol durante a primavera, verão, outono e inverno. E, penso; provavelmente poucos deles compreendem estas notas que não são mais do que palavras que não precisamos de dizer, porque são tão somente um rio que corre dentro de nós, que nos embala nesta embriaguez de sentidos que faz um homem caminhar à chuva, colhendo todas as palavras que nascem do céu.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

diário, 5.

O Sol traz fantasmas no regaço, como a minha mãe costumava trazer seixos e molas de estender a roupa no bolso do avental descosido. Tal como a minha mãe, o Sol lança o lençol no vazio, cobre-me momentaneamente o rosto, estende os dedos para o infinito e preenche todo o mundo. O Sol arde. O fogo consome o entardecer e as memórias que dormitam no horizonte coberto de cinza. A cinza cai das árvores, parecem folhas cansadas, suspiros de fumo e finais antecipados. O futuro traz-me uma saudade desmesurada, tão grande que o meu peito não chega para a conter, escapa-se-me através da pele, das mãos quietas e estáticas, do rosto disforme, da expressão apagada. O Sol sorri, pergunta como se pode ter saudades de algo que nunca se viveu. Mas o Sol sabe, sabe porque fecha os olhos e sente a falta da noite que precedeu e sucederá a sua existência, sabe mas não se demora a pensar nessas coisas, porque o Sol arde, e é nas chamas que consome a sua existência e vida.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

diário, 4.

Eu conheci mil passos antes destes que agora ouço. Mil passos, perdidos em recônditos cantos de uma memória antiga, secular. Perco algures o olhar em árvores famintas de um céu inatingível. As árvores sabem melhor do que ninguém que a alma não se toca, vê-se e contempla-se, e é por isso que as árvores nasceram para o céu, e nunca para a terra nem para o mar.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

diário, 3.

As horas eram fios de luz que repousavam à cabeceira do tempo. Na cama, o meu corpo era o peso do mundo, as minhas pernas raízes que se afundavam no soalho frio. Encostado a um canto, o silêncio abria os olhos grandes, duas luas que orbitavam o quarto na monotonia esquecida do universo. Um fina ruga atravessava-lhe a testa, escondida pelas madeixas do seu cabelo doirado. No lugar dos braços existiam dois ramos grossos, e desses ramos brotavam outros mais finos, e desses mais finos surgiam outros ainda mais finos. Esses ramos, os membros do silêncio, contornavam as cómodas frias, as cadeiras frias, a secretária fria, os armários frios, a cama fria, o candeeiro frio, preenchiam o espaço exíguo da divisão como caminhos de estrelas no céu negro e negro. Eu e o silêncio. Quis falar-lhe, dizer-lhe uma palavra, mas o silêncio, mudo, tudo escuta e nada ouve, só o silêncio conhece o verdadeiro significado das palavras, mesmo antes de estas terem sido inventadas.

sábado, 20 de agosto de 2011

[01]

Das minhas mãos constroem-se
castelos de areia, edificados
em terra mole e moldável,
friável sob o toque frio
dos dedos lânguidos do oceano.

Observo o fenómeno;
quebram-se palavras, goles
de sal que ardem nos lábios
quietos e cheiros de vagar,
vagas que entram pelas
janelas, portas, chaminés, sótãos.
A água desliza em silêncio,
esculpe do que há
novas formas e nenhuma existência,
dentro de um castelo existem
cabanas e casas escondidas,
anexos e gavetas de papéis,
arquivos que traçam linhas
nos rostos de mares e portos
que vão mas não vêm.

Hoje somos gaivotas que, em dias
de tempestade, se deixam estar
perto destes castelos
a observar o mar
e a gritar.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

diário, 2.

Hoje desconstruo a essência do tempo, castelos fabricados que nos são oferecidos no instante em que as nossas pálpebras se abrem e iniciam a captura mecânica e livre do espaço. Nas minhas mãos, o tempo sossega e planta a inquietação no meu peito, entre as costelas famintas de coisa nenhuma, quebram-se luzes no lugar confinado e oculto atrás dos meus olhos. O tempo é macio e desfaz-se com facilidade, separo-o como quem descasca uma laranja madura, o sumo escorrega-me pelas mãos, agridoce, memórias que são a polpa do homem. Separo cada pedaço, vozes soltas, todos os homens dissecam as horas em minutos, os minutos em segundos, os segundos em séculos, não existe mistério algum nos passos do cirurgião que contempla o batimento do corpo gigante e manso do tempo. As mãos enchem-se-me de manchas, borrões brilhantes e corroídos pelo vento, a eternidade é a palavra que, uma vez escrita, não pode ser apagada. E do meu corpo soltam-se suspiros efémeros, morro no instante em que esvazio as mãos e o tempo se esvai dentro de mim, pássaro do universo, morro e o tempo morre comigo. Nasce assim a eternidade e, no centro do mundo, o meu nome será sempre eterno.

diário, 1.

A noite caía na cidade como uma essência fugaz, eternizada pelo monótono suspiro dos carros solitários. No entardecer, a cidade é a solidão. A solidão agarrada às carruagens velhas do metro, às paragens de autocarro despidas de luz, aos rostos das pessoas que regressam aos lares e a lado nenhum. A solidão encontra sempre abrigo nas cidades povoadas de mãos vazias, de ares estagnados, de luzes desfocadas, sombras de pirilampos inventadas para ofuscar as estrelas. Na solidão, o meu nome ergue-se e torna-se numa palavra despida de significado. O meu nome, só, mil sóis inventados, clave de sol de solstícios soldados num semblante solto e livre. A cidade e eu; a solidão. No entardecer, a cidade é a solidão e a solidão é inventada no meu nome. E eu, cidade de palavras e vidas, a solidão.