quinta-feira, 18 de agosto de 2011

diário, 2.

Hoje desconstruo a essência do tempo, castelos fabricados que nos são oferecidos no instante em que as nossas pálpebras se abrem e iniciam a captura mecânica e livre do espaço. Nas minhas mãos, o tempo sossega e planta a inquietação no meu peito, entre as costelas famintas de coisa nenhuma, quebram-se luzes no lugar confinado e oculto atrás dos meus olhos. O tempo é macio e desfaz-se com facilidade, separo-o como quem descasca uma laranja madura, o sumo escorrega-me pelas mãos, agridoce, memórias que são a polpa do homem. Separo cada pedaço, vozes soltas, todos os homens dissecam as horas em minutos, os minutos em segundos, os segundos em séculos, não existe mistério algum nos passos do cirurgião que contempla o batimento do corpo gigante e manso do tempo. As mãos enchem-se-me de manchas, borrões brilhantes e corroídos pelo vento, a eternidade é a palavra que, uma vez escrita, não pode ser apagada. E do meu corpo soltam-se suspiros efémeros, morro no instante em que esvazio as mãos e o tempo se esvai dentro de mim, pássaro do universo, morro e o tempo morre comigo. Nasce assim a eternidade e, no centro do mundo, o meu nome será sempre eterno.

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