segunda-feira, 22 de agosto de 2011

diário, 3.

As horas eram fios de luz que repousavam à cabeceira do tempo. Na cama, o meu corpo era o peso do mundo, as minhas pernas raízes que se afundavam no soalho frio. Encostado a um canto, o silêncio abria os olhos grandes, duas luas que orbitavam o quarto na monotonia esquecida do universo. Um fina ruga atravessava-lhe a testa, escondida pelas madeixas do seu cabelo doirado. No lugar dos braços existiam dois ramos grossos, e desses ramos brotavam outros mais finos, e desses mais finos surgiam outros ainda mais finos. Esses ramos, os membros do silêncio, contornavam as cómodas frias, as cadeiras frias, a secretária fria, os armários frios, a cama fria, o candeeiro frio, preenchiam o espaço exíguo da divisão como caminhos de estrelas no céu negro e negro. Eu e o silêncio. Quis falar-lhe, dizer-lhe uma palavra, mas o silêncio, mudo, tudo escuta e nada ouve, só o silêncio conhece o verdadeiro significado das palavras, mesmo antes de estas terem sido inventadas.

1 comentário:

André Pereira disse...

O silêncio é de facto o melhor ouvinte, tudo escuta. Tudo avalia, mas por vezes quando não se cala, torna-se difícil pensar e articular.