quinta-feira, 25 de agosto de 2011

diário, 5.

O Sol traz fantasmas no regaço, como a minha mãe costumava trazer seixos e molas de estender a roupa no bolso do avental descosido. Tal como a minha mãe, o Sol lança o lençol no vazio, cobre-me momentaneamente o rosto, estende os dedos para o infinito e preenche todo o mundo. O Sol arde. O fogo consome o entardecer e as memórias que dormitam no horizonte coberto de cinza. A cinza cai das árvores, parecem folhas cansadas, suspiros de fumo e finais antecipados. O futuro traz-me uma saudade desmesurada, tão grande que o meu peito não chega para a conter, escapa-se-me através da pele, das mãos quietas e estáticas, do rosto disforme, da expressão apagada. O Sol sorri, pergunta como se pode ter saudades de algo que nunca se viveu. Mas o Sol sabe, sabe porque fecha os olhos e sente a falta da noite que precedeu e sucederá a sua existência, sabe mas não se demora a pensar nessas coisas, porque o Sol arde, e é nas chamas que consome a sua existência e vida.

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