segunda-feira, 29 de agosto de 2011

caderno, 1.

2009.
1.

Insurge-se a noite, sonâmbula e submissa aos pingos gordos e grossos da chuva que cai nos passeios e nas estradas. Este som é o momento que pousa nos relógios abrigados sobre cómodas ou pendurados em paredes tristes. Na minha embriaguez de sentidos sorvo anéis de fumo brancos e quase perfeitos, roçam-me a língua e sabem a cidades vazias e abandonadas. Na mão esquerda trago um copo translúcido e quase invisível. Não sei para que serve, mas cada gota que desliza pelo vidro exala uma nota rude e áspera, enchendo-se gradualmente, mas nunca transbordando. E, penso; creio que todos os humanos padecem duma sede insustentável que os assusta e deixa insatisfeitos. Uma sede que se estende nas esteiras de bambu que estalam ao sol durante a primavera, verão, outono e inverno. E, penso; provavelmente poucos deles compreendem estas notas que não são mais do que palavras que não precisamos de dizer, porque são tão somente um rio que corre dentro de nós, que nos embala nesta embriaguez de sentidos que faz um homem caminhar à chuva, colhendo todas as palavras que nascem do céu.

1 comentário:

-pirata-vermelho- disse...

Esta escrita pinta como -mal comparado- é descrito em certas pinturas do Miró ou, em contraste mas mais além, dos expressionistas abstractos.