terça-feira, 20 de setembro de 2011

diário, 9.

A pior distância é aquela que pode ser quebrada com dois passos, um braço esticado, um, dois segundos. A pior distância é aquela que, suspensa pelos dois ponteiros do relógio, se estica sem nunca se rasgar. Era nisso que pensava muitas vezes, quando os nossos corpos arrefeciam sem tempo, num lugar onde a distância sussurrava palavras de contentamento. Deitada sobre os nossos pés desmaiados, a distância limitava-se a existir num punhado de palavras ausentes. Ainda hoje penso nessa distância; plantada à minha alma, sobrevive em quilómetros de recordações, agora a distância é um gigante feliz e satisfeito, é nas figuras solitárias que a distância trauteia odes intermináveis.

A pior distância é aquela que pode ser quebrada com dois passos, um braço esticado, um, dois segundos. É aquela que sobrevive num olhar, sem fundo, profundo, um mundo. Neste lugar.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

caderno, 2.

Agosto, 2011,
2.

Audazes são aqueles que logram escrever a palavra saudade. O avô ficava sempre muito sério quando dizia aquela frase, vestia a voz rouca que usava quando se sentava à janela, os olhos acima da armação dos óculos, o cigarro desmaiado e agarrado à palidez dos dedos grossos e rugosos. A voz do avô engrossava como o caldo que a avó mexia na cozinha, a casa enchia-se do cheiro a sopa, a arroz e a galinha até a casa ser uma grande tijela de canja e eu e o meu avô respirarmos o jantar e mastigarmos silêncio. Audazes, sim, meu filho. Sabes o que é ser audaz? A pergunta empoleirava-se nas videiras que seguravam as uvas ainda verdes, os meus olhos sorviam cada trago daquela interrogação, ávido de curiosidade. O avô sorria sempre com o meu olhar, pegava na folha de papel onde os meus desenhos de criança se pavoneavam numa grandiosidade multicolor. Ser audaz é pegar numa caneta e escrever as palavras mais raras do mundo. É deixar que a tinta escorra por esta folha, é dar-lhe contornos e não ter medo. Sabes, meu filho. As pessoas passam as suas vidas a escrever com lápis. Escrevinham e, caso se arrependam, apressam-se a apagá-las, assim, olha. O avô desenhava uma letra com um dos meus lápis de carvão, pegava na borracha, passava-a por cima, e eu ficava a vê-la a desaparecer, no final sobravam as aparas e já está. Ser audaz, meu filho, é escrever com uma caneta as palavras mais raras do mundo. É pegar nesta caneta e escrever: amor. É pegar nela e escrever: saudade. É pegar nela e escrever: dor. E mesmo que as queiras fazer desaparecer, tens de as rasurar e escrever tudo de novo. E, ainda assim, elas continuarão lá, para te recordarem o erro que cometeste. Percebeste, filho? O sorriso do avô era o mundo inteiro esculpido naquele lugar, o livro aberto onde as mãos pousam e ali se quedam a dormitar. Eu assentia com a cabeça. O avô, de barriga cheia, abria a janela, riscava um fósforo, acendia o cigarro. O pôr-do-sol e os olhos do meu avô eram as horas que o relógio se esquecia de contar. Audazes são aqueles que logram escrever a palavra saudade. A sua voz descia no horizonte, embalada por uma nuvem que nascia sobre oseu bigode branco e farto.
Ainda hoje só sei escrever com canetas e com a memória do cheiro da canja da avó no ar.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

diário, 8.

Hoje o frio cola-se-me ao corpo, trinta graus centígrados lá fora, mas o frio congela-me os braços, os ombros, o rosto, levanta-me os pêlos do corpo e enregela-me os ossos que estalam como ramos secos e duros. Desconheço o motivo que leva o frio a abraçar-me em pleno Verão, parece até desesperado, diria, como se a minha existência fosse o seu único sustento. Pergunto-me. Se eu te largar, será que desaparecerás para sempre, levando contigo esse corpo gelado, essas palavras envolvidas num fino fio de vapor que se evapora, evapora, evapora? O frio não responde, a voz sai-lhe muda e desaparece antes que a possa ouvir. Hoje abraço o frio. E, penso. No fundo do nosso corpo, por entre sangue a fervilhar, quente e célere, por entre órgãos pulsantes e vibrantes, talvez o frio exista na alma e nos consuma por dentro, talvez seja nesses dias que a alma está mais perto dos nossos lábios, da pele, à superfície, talvez seja nesses dias que o frio nos abrace e pronuncie palavras mudas, pois não são precisas vozes para que possamos compreender os dialectos que não nos foram ensinados, mas aprendidos com o tempo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

diário, 7.

Obrigo-me a não escrever,
porque, se escrever,
recordo,
e, se recordar,
morro,


morro,



morro.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

diário, 6.

Existem dias em que gostava de arrancar as palavras que me nascem do peito. Como ervas daninhas, urtigas que magoam, doem, ardem. Existem dias em que as palavras ganham asas e são estorninhos dentro do meu corpo, contorcem a plumagem e gravam imagens por entre as nuvens pardas. Os dias existem, e é nessa existência que peço que estes exórdios se deixem de repetir. Mas os estorninhos nunca me ouvem, porque no céu só as palavras que nascem têm voz, só as palavras que gritam da alma se fazem ouvir, trovões que se perdem e regressam, são memórias que assustam, mas que não conseguimos deixar de contemplar.