quarta-feira, 14 de setembro de 2011

caderno, 2.

Agosto, 2011,
2.

Audazes são aqueles que logram escrever a palavra saudade. O avô ficava sempre muito sério quando dizia aquela frase, vestia a voz rouca que usava quando se sentava à janela, os olhos acima da armação dos óculos, o cigarro desmaiado e agarrado à palidez dos dedos grossos e rugosos. A voz do avô engrossava como o caldo que a avó mexia na cozinha, a casa enchia-se do cheiro a sopa, a arroz e a galinha até a casa ser uma grande tijela de canja e eu e o meu avô respirarmos o jantar e mastigarmos silêncio. Audazes, sim, meu filho. Sabes o que é ser audaz? A pergunta empoleirava-se nas videiras que seguravam as uvas ainda verdes, os meus olhos sorviam cada trago daquela interrogação, ávido de curiosidade. O avô sorria sempre com o meu olhar, pegava na folha de papel onde os meus desenhos de criança se pavoneavam numa grandiosidade multicolor. Ser audaz é pegar numa caneta e escrever as palavras mais raras do mundo. É deixar que a tinta escorra por esta folha, é dar-lhe contornos e não ter medo. Sabes, meu filho. As pessoas passam as suas vidas a escrever com lápis. Escrevinham e, caso se arrependam, apressam-se a apagá-las, assim, olha. O avô desenhava uma letra com um dos meus lápis de carvão, pegava na borracha, passava-a por cima, e eu ficava a vê-la a desaparecer, no final sobravam as aparas e já está. Ser audaz, meu filho, é escrever com uma caneta as palavras mais raras do mundo. É pegar nesta caneta e escrever: amor. É pegar nela e escrever: saudade. É pegar nela e escrever: dor. E mesmo que as queiras fazer desaparecer, tens de as rasurar e escrever tudo de novo. E, ainda assim, elas continuarão lá, para te recordarem o erro que cometeste. Percebeste, filho? O sorriso do avô era o mundo inteiro esculpido naquele lugar, o livro aberto onde as mãos pousam e ali se quedam a dormitar. Eu assentia com a cabeça. O avô, de barriga cheia, abria a janela, riscava um fósforo, acendia o cigarro. O pôr-do-sol e os olhos do meu avô eram as horas que o relógio se esquecia de contar. Audazes são aqueles que logram escrever a palavra saudade. A sua voz descia no horizonte, embalada por uma nuvem que nascia sobre oseu bigode branco e farto.
Ainda hoje só sei escrever com canetas e com a memória do cheiro da canja da avó no ar.

2 comentários:

João disse...

este texto tocou-me, porque me lembrou o meu avô.

o meu avô adorava escrever. escrevia tudo, e até em conversa tinha um tom de poeta (não necessariamente nas palavras, mas na doçura, na musicalidade daquelas que utilizava). morreu sem conseguir publicar nada, apesar das tentativas.

quando morreu, escrevi-lhe um poema. no funeral, tentaram lê-lo, mas ninguém foi capaz de o ler sem chorar imenso. levou a cópia original no peito, para sempre.

e agora aquela casa é um lugar sem asas, onde vejo a minha avó envelhecer de todas as formas em que é possível envelhecer, como quem espera algo que não vai chegar. tento sempre pôr um sorriso na cara dela (nem que seja só com o acto de a visitar), mas aquele olhar vazio diz tanto, e entristece tanto.

teresa tomaz disse...

Fico contente por este texto ter conseguido fazer transparecer algo para lá das palavras. Também perdi o meu avô, que não era um escritor no verdadeiro sentido do termo, mas era um poeta. Um poeta cheio de vida.