quinta-feira, 8 de setembro de 2011

diário, 8.

Hoje o frio cola-se-me ao corpo, trinta graus centígrados lá fora, mas o frio congela-me os braços, os ombros, o rosto, levanta-me os pêlos do corpo e enregela-me os ossos que estalam como ramos secos e duros. Desconheço o motivo que leva o frio a abraçar-me em pleno Verão, parece até desesperado, diria, como se a minha existência fosse o seu único sustento. Pergunto-me. Se eu te largar, será que desaparecerás para sempre, levando contigo esse corpo gelado, essas palavras envolvidas num fino fio de vapor que se evapora, evapora, evapora? O frio não responde, a voz sai-lhe muda e desaparece antes que a possa ouvir. Hoje abraço o frio. E, penso. No fundo do nosso corpo, por entre sangue a fervilhar, quente e célere, por entre órgãos pulsantes e vibrantes, talvez o frio exista na alma e nos consuma por dentro, talvez seja nesses dias que a alma está mais perto dos nossos lábios, da pele, à superfície, talvez seja nesses dias que o frio nos abrace e pronuncie palavras mudas, pois não são precisas vozes para que possamos compreender os dialectos que não nos foram ensinados, mas aprendidos com o tempo.

Sem comentários: