domingo, 30 de outubro de 2011

3.

e era tão somente assim o tempo;
a noite que cresce dos telhados das casas
e que se inclina pelo rosto da cidade,

o outono pousado nos ombros daqueles
que acendem estrelas apagadas,

e era tão somente assim o tempo;
era como quebrar mil instantes com os dedos
e vê-los a ansiar pela sombra do oceano,

era como abrir as mãos e dizer:
não tenho nada para dizer,

a ausência de palavras sobre os ecos de vozes
vestidos do silêncio de ser o mundo inteiro
num universo feito de mar.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

recorte, 1.

e tudo parece a ausência que se quedou
emudecida nos contornos da cidade quebrada
onde nos alimentamos de rascunhos e versos soltos
que, ditos em voz alta, se tornam no som
do universo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

2.

quis ensinar-te tanta coisa,
os maneirismos do universo,
de tal forma que
ousámos um dia cruzar
as ruas estreitas de uma galáxia,

olha, dizias,
há tanta coisa atrás dos teus olhos,
é nessa escuridão que me vejo
reflectido, o meu nome
sabe a uma estrela deserta,

singularidades de sonhos,
os nossos lábios suspensos
em notas de um piano,

a vida não é linear,
disseste, repetiste,
a vida
não é
linear,

escreveste uma frase,
ponto final,
parágrafo.

agora resta-nos
abrir um parêntesis recto
e deambular por buracos negros,
apartes constantes,
omissões recorrentes,

seremos para sempre
[as palavras que ficaram por dizer]
versos longos que desapareceram
numa linha vazia,

porque, como vês,
a vida que escolheste
é
[linear,
será sempre e apenas]
vulgar, feita de ar,

o vazio irrespirável,
até ser nada,
apenas o início de uma frase
comum, provérbio repetido,
ditos e dizeres usados,

gastaste as palavras
e agora sobra-nos apenas o silêncio.

sábado, 8 de outubro de 2011

diário, 12.

Gostava que pudesses imaginar a magnificência que este entardecer carrega, leva as mãos cheias de uma beleza eternizada nos contornos de todas as coisas que descansam neste momento. Hoje entardece mil vezes, a repetição incessável de pontos finais, os corpos dos pássaros lançados no céu. Na terra a vegetação rasteja e sussurra todos os segredos inúteis do universo enquanto o dia moribundo se consome atrás das nuvens de fogo e fumo. Debaixo de um carvalho, a tua voz emudece e desfaz, rompe fios eléctricos e moinhos de vento, a tua voz é a ausência da própria solidão e, dentro da solidão, a ausência do esquecimento tenebroso que antecede a noite ansiosa. A terra áspera cobre-me os pés, quedo-me indefinidamente nesta fronteira de dicotomias gémeas, o sol cai-me pelos ombros, cruza a saliência da clavícula, desce pelo esterno, contorna os seios e a cintura, rodeia-me as pernas, pára nos joelhos e desliza pelos calcanhares, rasga-me o corpo translúcido e feito de vapor. Digo, leva-me as cicatrizes, mas pareces não entender. Hoje entardece mil vezes, passar-se-ão mil anos por este momento e, ainda assim, seriam necessários outros mil anos para que o meu corpo tomasse a forma de uma árvore e fosse livre.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

diário, 11.

Hoje sou o vazio de uma resposta vadia, a luz que os candeeiros lançam sobre a noite devota, devota ao cansaço carregado pelos transeuntes que arrastam os pés e as almas pelos passeios, deitam beatas e cospem o ardor que levam no peito. Uma mulher sentada nas escadas da igreja parece querer arrancar o coração, desconhece que o coração não sabe sentir a dor que a consome, desconhece que não é ali que se constroem as lágrimas que lhe enchem os pés, as mãos, os braços, os ombros, lágrimas que correm e que se evaporam pelos seus poros e olhos e lábios. Mas nada disso importa quando existe um rio dentro de nós que conflui no lugar onde o coração descansa, um rio que sabe entender a noite e a solidão do universo, um rio tão fundo, afunda-se e afunila-se em remoinhos cercados pela ausência. Deito o corpo no vazio e quedo-me suspensa, hoje sou o vazio de uma resposta vadia e de perguntas exaustas de existir.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

diário, 10.

Passo horas a olhar através da janela, a expressão vazia de predicados. Os faróis dos carros levam-me o olhar esbatido. Os pássaros já se recolheram, sobram as carruagens do metro que, ao longe, ignoram a ausência do meu rosto. O dia finda e o céu veste-se dum oceano encoberto por uma neblina infindável. Atrás do horizonte, atrás do túnel que estas luzes atravessam, atrás das sombras que se projectam num entardecer voraz, atrás de tudo isso a minha alma repousa e existe, e tudo o que surge na distância dos meus olhos são palavras de outro tempo, dialectos anciães que se perderam algures na estrada. A noite cai atrás do horizonte, na noite as estrelas sabem ser maiores, errantes numa terra errada e rara, lágrimas de gigantes contidas. Pois se os gigantes não choram, guardam as palavras na alma e nas costas sábias e longínquas, enterram os pés no mundo e inventam janelas por onde se observam mundos descobertos e perdidos, revividos e olvidados. É nesta janela que me encontro sempre, a voar no firmamento, até o tempo ser apenas o compasso dos faróis dos carros que descem e sobem, prolongando-se no infinito.