segunda-feira, 3 de outubro de 2011

diário, 10.

Passo horas a olhar através da janela, a expressão vazia de predicados. Os faróis dos carros levam-me o olhar esbatido. Os pássaros já se recolheram, sobram as carruagens do metro que, ao longe, ignoram a ausência do meu rosto. O dia finda e o céu veste-se dum oceano encoberto por uma neblina infindável. Atrás do horizonte, atrás do túnel que estas luzes atravessam, atrás das sombras que se projectam num entardecer voraz, atrás de tudo isso a minha alma repousa e existe, e tudo o que surge na distância dos meus olhos são palavras de outro tempo, dialectos anciães que se perderam algures na estrada. A noite cai atrás do horizonte, na noite as estrelas sabem ser maiores, errantes numa terra errada e rara, lágrimas de gigantes contidas. Pois se os gigantes não choram, guardam as palavras na alma e nas costas sábias e longínquas, enterram os pés no mundo e inventam janelas por onde se observam mundos descobertos e perdidos, revividos e olvidados. É nesta janela que me encontro sempre, a voar no firmamento, até o tempo ser apenas o compasso dos faróis dos carros que descem e sobem, prolongando-se no infinito.

3 comentários:

Mariannrod disse...

Teresa, tu escreves muito muito bem! Gosto muito da tua expressividade, das tuas palavras, e além do mais a tua coragem por expressar o que sentes/pensas.
Adoro : )

João disse...

um inspirar e expirar em câmara lenta, as if the world slows down when you are paying attention.

teresa tomaz disse...

Obrigada, Mariana, fico muito feliz por teres lido estes devaneios. Obrigada.

É a lentidão dos passos que traz o mundo nos bolsos das calças, João, o tempo conhece jeitos e pormenores que são eternos.