sábado, 8 de outubro de 2011

diário, 12.

Gostava que pudesses imaginar a magnificência que este entardecer carrega, leva as mãos cheias de uma beleza eternizada nos contornos de todas as coisas que descansam neste momento. Hoje entardece mil vezes, a repetição incessável de pontos finais, os corpos dos pássaros lançados no céu. Na terra a vegetação rasteja e sussurra todos os segredos inúteis do universo enquanto o dia moribundo se consome atrás das nuvens de fogo e fumo. Debaixo de um carvalho, a tua voz emudece e desfaz, rompe fios eléctricos e moinhos de vento, a tua voz é a ausência da própria solidão e, dentro da solidão, a ausência do esquecimento tenebroso que antecede a noite ansiosa. A terra áspera cobre-me os pés, quedo-me indefinidamente nesta fronteira de dicotomias gémeas, o sol cai-me pelos ombros, cruza a saliência da clavícula, desce pelo esterno, contorna os seios e a cintura, rodeia-me as pernas, pára nos joelhos e desliza pelos calcanhares, rasga-me o corpo translúcido e feito de vapor. Digo, leva-me as cicatrizes, mas pareces não entender. Hoje entardece mil vezes, passar-se-ão mil anos por este momento e, ainda assim, seriam necessários outros mil anos para que o meu corpo tomasse a forma de uma árvore e fosse livre.

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